Adolescente é assassinada após crítica feita em rede social; investigação aponta envolvimento de liderança do Comando Vermelho
Gabriela da Silva Pereira tinha 16 anos quando foi morta em Cáceres (MT); investigação aponta que uma publicação nas redes sociais teria desencadeado uma série de ameaças e agressões
Uma crítica feita durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais teria sido o ponto de partida para uma sequência de acontecimentos que terminou com a morte de Gabriela da Silva Pereira, de 16 anos, em Cáceres, no Mato Grosso.
Segundo as investigações, a adolescente havia reclamado da qualidade da maconha que teria comprado de um ponto ligado ao Comando Vermelho. A manifestação, porém, teria sido interpretada pelos integrantes da organização criminosa como uma afronta à facção e até como uma possível demonstração de proximidade com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A situação teria se agravado depois que os criminosos encontraram no celular de Gabriela uma fotografia na qual ela fazia um gesto associado ao PCC. A adolescente teria negado qualquer ligação com a facção rival e tentado explicar a situação, mas, conforme a investigação, os envolvidos decidiram puni-la.
Adolescente foi atraída para uma residência
O crime ocorreu em 1º de setembro de 2024. Gabriela estava acompanhada de uma amiga quando as duas foram atraídas para um imóvel localizado no loteamento Jardim Primavera.
Inicialmente, o encontro teria sido apresentado como uma confraternização, com consumo de bebida e drogas. No entanto, segundo a investigação, ao chegarem ao imóvel, as adolescentes tiveram os celulares tomados e foram submetidas a interrogatórios e ameaças.
As duas tiveram mãos e pés amarrados enquanto os criminosos tentavam descobrir se possuíam alguma ligação com o PCC.
Durante o interrogatório, os envolvidos teriam realizado uma chamada de vídeo com outro integrante do grupo, conhecido pelo apelido de “Itashi”, para decidir o destino de Gabriela.
A amiga da adolescente acabou sendo libertada, mas recebeu ameaças para que não revelasse o que havia acontecido.
Gabriela, entretanto, permaneceu sob o poder dos criminosos.
Crime terminou em morte
De acordo com os elementos reunidos pela investigação, a adolescente foi submetida a novas agressões e posteriormente levada para uma área afastada.
Mesmo após uma primeira tentativa de execução, os criminosos teriam percebido que Gabriela ainda estava viva. Ela sofreu novos ataques e acabou sendo assassinada.
O corpo foi abandonado próximo a uma estrada de chão.
Na manhã de 2 de setembro, uma pessoa que passava pelo local encontrou o corpo da adolescente próximo a uma cerca e acionou as autoridades. Gabriela apresentava ferimentos compatíveis com a violência sofrida.
Primeiras prisões ocorreram no mesmo dia
As primeiras prisões relacionadas ao crime aconteceram em 2 de setembro de 2024.
Um homem de 20 anos foi localizado na residência que teria sido utilizada durante o crime. No imóvel, policiais encontraram manchas de sangue, além de roupas e objetos queimados no quintal.
Segundo a investigação, o suspeito confessou participação e indicou outros envolvidos. Um segundo homem, de 24 anos, também foi localizado e preso.
Na época, os dois foram autuados pelos crimes de tortura, organização criminosa e homicídio qualificado.
As investigações, entretanto, continuaram avançando.
Operação aponta possível participação de mulher presa
Quase dois anos após o assassinato, novas diligências passaram a apontar para uma mulher conhecida como “Princesa”.
Trata-se de Amanda Kess Aguilhera Pereira, apontada pela investigação como uma liderança do Comando Vermelho na região de Cáceres.
Amanda já estava presa quando a Polícia Civil deflagrou, em 7 de abril de 2026, a Operação Coroa Quebrada.
Segundo a investigação, ela estaria entre as pessoas envolvidas no crime contra Gabriela. A suspeita e outro investigado teriam participado da abordagem da adolescente e da amiga e da condução das duas até o imóvel onde ocorreram os interrogatórios.
Investigação aponta atuação de dentro da prisão
Um dos pontos destacados pela Polícia Civil durante a investigação foi a suspeita de que Amanda continuava exercendo influência sobre integrantes da organização criminosa mesmo estando presa na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá.
De acordo com a investigação, a organização mantinha uma estrutura dividida em diferentes funções, envolvendo tráfico de drogas, armas, logística e execuções.
Os investigadores também apontaram o uso de aplicativos de mensagens para comunicação entre integrantes e coordenação de ações criminosas.
Operação identificou 28 integrantes
A Operação Coroa Quebrada identificou pelo menos 28 pessoas supostamente ligadas à organização criminosa.
Em abril de 2026, foram cumpridos 21 mandados, sendo quatro de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão.
Além de Amanda, permaneceram presos por determinação da Justiça de Cáceres outros três investigados: Bruno de Oliveira Villas Boas, Junio Souto Rodrigues e Aldo Hansen de Souza.
As acusações e conclusões apresentadas pela investigação ainda estão sujeitas à análise judicial, observando-se o direito de defesa e a presunção de inocência dos investigados.
O caso de Gabriela, uma adolescente de apenas 16 anos, permanece como uma das investigações de maior repercussão criminal em Cáceres. Para a polícia, a morte teria sido resultado de uma disputa e de mecanismos de punição internos de uma organização criminosa, desencadeados após manifestações da jovem nas redes sociais.
